Lições da Copa

Dom Genival Saraiva de França

Lições da Copa

Dom Genival Saraiva Bispo Emérito de Palmares (PE)

Envolvendo países de diversos Continentes, desde 1930, realiza-se a Copa do Mundo que sempre foi vista como um evento que promove o congraçamento entre as nações. Com efeito, ao longo dos tempos, o futebol vem se revelando como o “esporte das multidões”. De fato, entre essas multidões, há pessoas e grupos realmente que amam o seu clube e beijam a camisa de seu time, apaixonadamente. Hoje a crônica jornalística identifica, entre estes, muitos casos de paixão doentia, basta que se analise o quadro de violência, em muitos países e cidades, nos estádios e arredores, nas vias públicas e nos transportes coletivos. Trata-se de uma doença social, com registro de mortes, de sequelas físicas em pessoas e de prejuízos públicos.

Sediar a Copa do Mundo é uma aspiração de muitos países, em razão dos dividendos de natureza política, turística e financeira que são colhidos por seus patrocinadores; nessa direção, de conformidade com o calendário da Fifa, evidenciam-se a disputa para sediar a Copa, visível na mídia, e os interesses de um variado lobby que, por natureza, sempre é obscuro. De regra, no momento dessa definição, a população vê com “bons olhos”, com euforia, a realização da Copa em seu país. Por ter feito as démarches requeridas pela Fifa, o Brasil viu coroado de êxito o seu empenho, ao ser escolhido, em 2007, como país-sede da Copa de 2014, fato que trouxe alegria à população. Todavia, com o “andar da carruagem”, segmentos da população foram fazendo sua leitura a respeito do evento, diante das suas muitas implicações, e começaram a se posicionar, de forma mais crítica. Assim, no contexto da abertura da Copa, conforme Pesquisa do Ibope, “Metade da população brasileira é a favor da realização da maior competição do futebol mundial no Brasil: 51% versus 42% que são contra”. Nessa leitura criteriosa, o ítem “custos financeiros” pesou muito, diante de muitas necessidades da população que deveriam ter prioridade, ao serem formuladas as políticas públicas, no âmbito municipal, estadual e federal.

A CNBB, entre muitas instituições da sociedade, se pronunciou a esse respeito: “Não é possível aceitar que, por causa da Copa, famílias e comunidades inteiras tenham sido removidas para a construção de estádios e de outras obras estruturantes, numa clara violação do direito à moradia. Tampouco se pode admitir que a Copa aprofunde as desigualdades urbanas e a degradação ambiental e justifique a instauração progressiva de uma institucionalidade de exceção, mediante decretos, medidas provisórias, portarias e resoluções. O sucesso da Copa do Mundo não se medirá pelos valores que injetará na economia local ou pelos lucros que proporcionará aos seus patrocinadores. Seu êxito estará na garantia de segurança para todos sem o uso da violência, no respeito ao direito às pacíficas manifestações de rua, na criação de mecanismos que impeçam o trabalho escravo, o tráfico humano e a exploração sexual, sobretudo, de pessoas vulneráveis e combatam eficazmente o racismo e a violência.”

A Copa do Mundo deixa lições que devem ser examinadas, responsavelmente, por quem a promoveu, pelos países que dela participaram e, de maneira especial, pelo governo e pela sociedade brasileira.

Os desafios da 52ª Assembléia Geral da CNBB

Dom Roberto Francisco Ferrería Paz

Os desafios da 52ª Assembléia Geral da CNBB

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz Bispo de Campos (RJ)

Iniciou no dia 30 de abril de 2014, e se encerrará no dia 09 de maio, ao meio dia, a 52ª Assembléia Geral da CNBB. Tratou como assuntos principais a renovação das paróquias em ordem a torná-la comunidade de comunidades e voltada para a irradiação missionária, atingindo o que se chama a "conversão pastoral" das estruturas, procedimentos e agentes.

Foi aprovado o documento que se posiciona sobre a questão agrária, buscando não só agilizar como queria São João Paulo II uma autêntica reforma agrária, mas promover um novo paradigma civilizatório com respeito a integridade do planeta e a defesa dos bens comuns e públicos das águas e das florestas. Um terceiro texto destinado a provocar uma reflexão e um debate mais aprofundado foi o dos Cristão leigos e leigas, luz do mundo e sal da terra.

Quer se assumir o legado do Concilio Vaticano II, empoderando os leigos, para resgatar a sua identidade batismal e missionária, fazendo-os protagonistas da Nova Evangelização, redefinindo espaços de comunhão e participação, consolidando na sinodalidade os CDLs ( Conselhos Diocesanos de Leigos ). Ainda foram feitas duas declarações: uma dirigida aos trabalhadores e trabalhadoras, combatendo a precariedade e penosidade do trabalho, bem como o trabalho escravo e forçado, conseqüência da globalização do capital especulativo e predatório, que afastam e violentam o verdadeiro sentido do trabalho na ótica da criação e do desígnio divino.

A segunda manifestação ocupou-se das eleições 2014, oferecendo uma analise de conjuntura e critérios para emitir um voto consciente e responsável, não focalizando em primeiro lugar candidatos, mas um projeto de Nação alicerçado num desenvolvimento integral, solidário e sustentável, que supere a ciranda financeira e lucro especulativo do grande capital, para criar trabalho decente, escola de qualidade, e saúde para todos, com segurança coletiva centrada nos direitos humanos e na justiça social.

Sentimos que a Igreja está vivendo um forte momento de Kairós, respondendo as iniciativas ungidas e proféticas do Papa Francisco. Estes desafios nos lançam certamente a construção e comprometimento com uma Igreja em saída, primeirando como diz o Papa no amor e na fraternidade solidária, servidora de todos /as. Deus seja louvado!

Viver bem a Semana Santa

Viver bem a Semana Santa

Dom Pedro Brito Guimarães Arcebispo de Palmas (TO)

A Semana Santa, para nós cristãos, é a semana mais importante do ano. Como bem diz o nosso povo: “estamos vivendo os dias grandes”. Esta Semana é grande porque nela celebramos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesta Semana Deus manifestou todo o seu amor pela humanidade e por cada um de nós. Com o apóstolo Paulo, cada um de nós pode dizer: “Ele me amou e se entregou por mim” (cf. Gl 2,20).

A Semana Santa, que ora iniciamos, pode ser considerada um manual de instruções para o cristão. Jesus pediu a seus discípulos que preparassem, com todo esmero, a sua Páscoa e, com isso, nos ensina hoje a fazer o mesmo. Vamos ler e meditar juntos o relato dos preparativos da Páscoa de Jesus?

Assim descreve o evangelista Marcos: “No primeiro dia dos ázimos, quando se imolava a Páscoa, os seus discípulos lhe disseram: ‘Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?’. Enviou então dois dos seus discípulos e disse-lhes: ‘Ide à cidade. Um homem levando uma bilha d’água virá ao vosso encontro. Segui-o. Onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘O Mestre pergunta: Onde está a minha sala, em que comerei a Páscoa com meus discípulos?’ E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala arrumada com almofadas. Preparai-a ali para nós”! (Mc 12b-15).

O apóstolo Paulo, por sua vez, lembra aos cristãos da comunidade de Coríntios para não celebrarem a Páscoa com o fermento da malícia e da perversidade (cf. 1 Cor 5,8). Não é esta uma orientação segura também para nós hoje? É triste constatar que muitos cristãos hoje vivem a Semana Santa com certa frieza e até na indiferença. A Semana Santa para nós, discípulos de Jesus, não é uma espécie de “carpe diem” (um aproveitar o hoje). Não é tempo para passear, pescar, se divertir, curtir a vida, relaxar, espairecer - como se fosse um feriadão. Assim como os discípulos de Jesus, também nós hoje devemos nos preparar bem para passar esses dias grandes na sua companhia. O Papa Francisco se lamenta que “há cristãos que parecem ter escolhido viver uma quaresma sem Páscoa" (EG 6). Contentam-se em celebrar uma Páscoa de aparência, sem graça, sem vida e sem passagem da morte para a vida. O bom cristão deve dizer com os cristãos de Abitine: “sem Eucaristia não podemos viver”. Parafraseando, “sem Semana Santa não podemos viver”. Onde, como e com quem vamos celebrar a Semana Santa deste ano de 2014?

Vejamos, então, os ensinamentos e as instruções que a Santa Mãe Igreja nos proporciona na Semana Santa através de sua liturgia:

O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, a Semana em que Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono donde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da salvação. A liturgia deste Domingo inicia-se com a bênção dos ramos e a procissão que comemora a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa de Jerusalém, na qual é acolhido como Rei. Na liturgia Eucarística, o Evangelho proclamado é a narrativa da Paixão do Senhor. Somos convidados a entrar com Jesus no mistério de sua paixão e aquecer o nosso coração com o amor que não tem fim, o amor de Deus por nós. O ensinamento deste dia é que devemos acolher Jesus em nossa vida, nos deixar atrair pela força do seu amor e trilhar o caminho alto que nos conduz a Deus.

Na Quinta-Feira Santa inicia-se o Tríduo Pascal com a solene celebração da Ceia do Senhor. O mistério Pascal é o mistério central da vida cristã. Unidos a Jesus Cristo na sua Paixão, Morte e Ressurreição, podemos também nós viver santamente nossa paixão, morte e ressurreição. Neste dia Jesus instituiu o grande dom da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. Também neste dia Jesus lavou os pés de seus apóstolos e nos deixou o mandamento do amor, nos ensinando, deste modo, a unir em nossas vidas, Eucaristia e serviço em favor dos irmãos. Quem se senta à mesa da Eucaristia não tem o direito de desprezar os pobres e marginalizados, nos quais Jesus se faz particularmente presente (cf. (Mt 25,31-46).

A Sexta-Feira Santa é um dia inteiramente centrado na cruz e na morte de Cristo. Não se celebra a Eucaristia neste dia. A principal celebração deste dia é a celebração da Paixão que, é, fundamentalmente, uma ampla celebração da Palavra que culmina com a adoração da cruz e termina com a comunhão eucarística. Não é dia de luto pela morte de Jesus. É a morte do Ressuscitado que celebramos, motivo pelo qual falar de luto é inadequado. É também dia de jejum e abstinência. Somos convidados e contemplar o mistério da morte de Jesus como mistério de amor infinito por nós. Neste dia “o Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se disse até calar, nada retendo do que nos devia comunicar. Está sem palavra a Palavra do Pai, que fez toda criatura que fala; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem vida” (Papa Emérito Bento XVI, Verbun Domini, 13).

O Sábado Santo é considerado o dia do silêncio litúrgico. A Igreja permanece em comunhão com o seu Senhor que repousa no sepulcro. Por isso, neste dia não se celebra nenhum sacramento. O grande símbolo deste dia é o Círio Pascal que entra solenemente no início da Vigília Pascal, simbolizando Cristo, Luz do mundo, que dissipa as trevas do pecado. Na liturgia da Palavra a Igreja proclama as maravilhas operadas por Deus na história da salvação, começando pela criação do mundo e passando pela libertação da escravidão do Egito. Maravilhas de todas as maravilhas é a Ressurreição de Cristo. Esta é a noite da nova criação, do novo mundo recriado na luz da ressurreição do Senhor. Esta Vigília se conclui com o “Aleluia”, canto, por excelência, da ressurreição, e a Solene liturgia eucarística da Páscoa do Senhor.

Domingo da Páscoa. A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. A porta que dá acesso à nova vida foi arrebentada. Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: “Faça-se a luz!” Antes tinham vindo a noite escura do Monte das Oliveiras e da traição de Judas, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro e do silêncio. Mas, agora a criação recomeça inteiramente nova. Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. O salmo desta liturgia canta: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos”. A Ressurreição de Cristo é o mistério fundante da fé cristã. Já bem dizia Santo Agostinho: “Crer que Jesus morreu não é grande coisa. Isto até os pagãos professam. Grande coisa é crer que Jesus ressuscitou. A fé cristã é a ressurreição de Cristo”. O Ressuscitado vence toda forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus que dá sentido pleno à nossa vida. Celebremos, portanto, nossa Páscoa na pureza e na verdade. FELIZ PÁSCOA DE RESSURREIÇÃO!

A Caridade nos ensinamentos de um Padre da Igreja

A Caridade nos ensinamentos de um Padre da Igreja

Cardeal Orani João Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Neste Ano da Caridade que estamos vivendo em nossa Arquidiocese, não podemos deixar de refletir sobre o amor desinteressado ao próximo, o ágape, à luz dos ensinamentos de alguns Padres da Igreja.

Também vivemos o Domingo de Ramos e da Paixão, quando, em nosso país, temos a Coleta da Solidariedade. A Igreja que partilha os frutos da penitência quaresmal como ato concreto para os irmãos e irmãs necessitados.

Os Padres da Igreja são muito duros em falar sobre a questão da riqueza e a importância da partilha. São textos antigos atualíssimos.

Como o próprio nome diz, Padres (=Pais) da Igreja são os grandes mestres (bispos, sacerdotes, religiosos ou leigos) que, nos primeiros séculos da história do Cristianismo, muito contribuíram, por meio de seus estudos, para a melhor formulação e explicitação das verdades centrais da nossa fé.

Classicamente, se entende que o último Padre da Igreja latina foi São Gregório Magno (†604) e da Igreja oriental São João Damasceno (†749), embora, de modo mais amplo, sejam inseridos entre eles nomes posteriores, que também atuaram em momentos decisivos, como por exemplo, São Cirilo e São Metódio, Santo Odon de Cluny, Santo Anselmo de Aosta, São Bernardo de Claraval etc. (cf. Bento XVI. Os Padres da Igreja II. Campinas: Ecclesiae, 2013).

Pois bem, dentre esses Padres está São Cipriano de Cartago (cerca de 210-258). Ele nos deixou, em meio aos seus escritos, o importante tratado Sobre as boas obras e a esmola, publicado em 252, portanto escrito há 1.762 anos, e que se mantém plenamente atual como se tivesse sido redigido ontem à tarde para nós, cristãos do século XXI.

Ao falarmos de misericórdia ou do compadecer-se ante a miséria alheia, seja ela material ou espiritual, devemos nos lembrar de que Deus é o grande misericordioso. Mais: Ele é a misericórdia por excelência, pois, para nos salvar e nos dar a verdadeira vida, enviou o seu próprio Filho, Jesus Cristo, para morrer por nós e, assim, nos redimir fazendo-nos também filhos de Deus (cf. Gl 4,7). Sim, Cristo Jesus “abaixou-se para erguer o povo que antes jazia na terra, deixou-se ferir para curar as nossas feridas, fez-se escravo para trazer os escravos à liberdade, e suportou a morte para elevar os mortais à imortalidade”. São, portanto, muitas e grandiosas as dádivas da Divina Misericórdia para conosco, peregrinos nesta terra em demanda da Jerusalém celeste (cf. n. 1).

Contudo, São Cipriano continua dizendo que não bastava ao Senhor Jesus vir curar-nos das feridas de Adão e extrair de nós o veneno da antiga serpente (cf. Gn 3). Era preciso deixar-nos uma Lei que nos ajudasse a permanecer sãos ou curados, por isso compeliu-nos a evitar o pecado e, consequentemente, guardar a inocência. Sabendo, no entanto, que, em nossa fragilidade e covardia, seríamos incapazes de cumprir à risca tão grande ensinamento, Deus nos deu as obras de justiça e de misericórdia a fim de que pudéssemos consolidar a nossa conversão e fortalecer nossa vida mediante a esmola – entenda-se, em sentido amplo, a caridade em geral.

Muito didático, Cipriano, que falou do amor do Pai ao enviar-nos seu Filho, lembra, agora, a missão especial do Divino Espírito Santo ao nos falar, por meio da Escritura, que pela esmola e pela fé apagam-se os pecados (cf. Prov. 16,6; 15,27), pois “tal como a água apaga o fogo, assim a esmola extingue o pecado” (Ecl 3,33), ou seja, assim como a água da salvação – derramada sobre nós no Batismo – apaga o fogo do inferno, as esmolas e boas obras apagam as chamas causadas pelos nossos delitos. Daí, uma vez mais, a sábia conclusão do santo cartaginês: “Se no Batismo somente se perdoam uma única vez os pecados, a prática assídua e incessante das esmolas torna a reconciliar-nos com Deus à imitação do que acontece no Batismo” (n. 2).

Sabemos que a celebração penitencial ou confissão é que perdoa os nossos pecados, mas a penitência e arrependimento nos fazem partilhar com os outros os bens deste mundo.

Afinal, no Evangelho, quando os discípulos do Senhor foram censurados por comerem sem ter lavado as mãos, Ele respondeu: “Insensatos! Quem fez o exterior, não fez também o interior? Antes, dai o que tendes em esmola e tudo ficará puro para vós” (Lc 11,40-41). Aqui, Jesus mostra, a princípio, que muito maior do que a limpeza exterior é a pureza interior, e para consegui-la, depois do Batismo, um dos grandes meios é dar esmolas ou praticar a misericórdia para com o próximo mais necessitado.

Eis um grande ensinamento que se põe a cada um de nós: se o exercício da caridade misericordiosa ajuda a apagar nossos pecados, e todos nós somos pecadores (cf. Prov 20,9; 1Jo 1,8), a consequência é óbvia: todos precisamos, se desejarmos, após a morte, a vida eterna – realidade refletida, muito especialmente durante o Tríduo Pascal – praticar, sem cessar, atos misericordiosos. A partir daqui, ensina São Cipriano: “Portanto, queridíssimos irmãos, a Palavra divina nunca se calou nas Sagradas Escrituras, quer no Antigo quer no Novo Testamento, nem deixou de impelir e animar o povo a realizar sempre e em toda parte as obras de Deus, e urge-o pela voz e pelas exortações do Espírito Santo a praticar a esmola, a fim de que adquirisse a firme esperança de chegar ao reino celestial” (n. 4).

Isso é tão real que, depois de ordenar ao profeta Isaías a censura à casa de Jacó por seus pecados e a repreensão a ela de modo impetuoso, o Senhor deixa claro uma verdade: só pelas boas obras poderiam os israelitas aplacar a ira divina desencadeada por seus atos maus e, por conseguinte, readquirir sobre eles a misericórdia divina. Eis textualmente a Palavra de Iahweh: “Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aqueles que vês nus e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isso, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente, e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda. Então clamarás e Iahweh responderá, clamarás por socorro e ele dirá: ‘Eis-me aqui! ’” (58,6-9).

Daí o comentário de São Cipriano: “Os meios de que dispomos para aplacar a Deus foram-nos dados, portanto, pela própria Palavra de Deus, pois os ensinamentos divinos mostraram o que devem fazer os pecadores, isto é, oferecer-lhe satisfação mediante as boas obras e purificar-se dos seus pecados com atos meritórios de misericórdia” (n. 5). Isso o testemunha fartamente a Escritura: quem é caridoso para com o pobre recebe dele as orações (cf. Ecl 29,12), enquanto quem não ouve a súplica do necessitado também não é ouvido por Deus (cf. Prov 21,13), pois só é boa a oração que vem acompanhada do jejum e da esmola (cf. Tb 12,8).

Aprendemos, assim, “que as nossas orações e o nosso jejum perdem a força se não estiverem unidos às esmolas, e que as súplicas isoladas de pouco valem, quando se trata de impetrar o favor de Deus, se não estão saturadas de atos e de obras” (n. 5). Por essa razão, o tempo quaresmal nos exorta ao importante tripé composto pelo jejum, a esmola (caridade) e a oração.

Queiramos, pois, ler e reler com grande atenção os ensinamentos bíblicos comentados por São Cipriano de Cartago, grande Padre e Doutor da Igreja, a respeito das boas obras de caridade, tão importantes para nós e para nossos irmãos e irmãs mais necessitados que temos a oportunidade de encontrar no nosso dia a dia. Eles são (ou deveriam ser) a imagem do Cristo zombado, ferido, chagado a precisar do nosso auxílio, seja pessoalmente, ou pelo encaminhamento a quem possa mais diretamente ajudá-los na amenização ou mesmo na extinção de seus indizíveis sofrimentos.

É para essa abertura ao outro que a Igreja nos convoca, e o Ano da Caridade de nossa Arquidiocese nos estimula. Deus espera, na pessoa do(a) sofredor(a), o nosso sim generoso e transformador. Assim seja!

Buscar vigor espiritual

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Buscar vigor espiritual

Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte

Os diagnósticos da crise contemporânea apontam processos corrosivos de desumanização, pesando existencialmente sobre os ombros de todos. É incontestável a perda do sentido da própria vida, com consequentes atentados contra a dignidade do outro. Violências de todo tipo permeiam as relações sociais e humanas como o tráfico de pessoas - tema da Campanha da Fraternidade (CF-2014) - a banalização da vida e a perda da noção de moralidade, que resultam no desrespeito aos valores essenciais do ser humano.

Essa desumanização que alimenta dia a dia o aumento da violência e intensifica a inércia de ações governamentais e cidadãs, exige reação urgente e massiva na reconfiguração dos cenários socioculturais e políticos.

Tem-se a impressão de que a sociedade contemporânea é um caminhão desgovernado ladeira a baixo, sem freios. De tudo acontece. Tudo parece possível quando deixa de existir clareza sobre os valores do bem e do mal na vida social e familiar. Diante desta realidade, é compromisso inegociável do cristão o combate diuturno para fazer triunfar o bem e a justiça.

Ardiloso, o mal não se dobra facilmente a qualquer ameaça. Vencê-lo requer estratégias inteligentes, de racionalidade e de vontade política próprias de quem tem estatura cidadã. Mas só a espiritualidade é capaz de sustentar a competência daquele que assume esta luta. Só ela tem poderes para alargar os corações e capacitar as pessoas para uma compreensão que ultrapassa a simples lógica das relações formais e conduzir à construção de uma sociedade justa e solidária, por meio do aprendizado do amor a partir de sua gênese: a fonte inesgotável, o amor, Deus revelado de maneira plena na pessoa de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador e Redentor. Significativo é ter presente o ápice do diálogo de Jesus com Nicodemos, narrado pelo evangelista João, quando o Mestre diz: ‘Deus amou tanto o mundo, que deu o seu filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna’.

Não se pode ser coração da paz e, assim, vencer o mal, sem beber da fonte do amor, que o limite humano não garante, em si. E este amor de Deus, na história da humanidade, se personifica em Jesus Cristo. Se há essa compreensão, permanece cotidianamente o desafio de aproximação dessa fonte e o usufruto da oferta dadivosa que ele faz de si, com ensinamentos e gestos que, imitados e testemunhados, podem fazer de cada coração da paz instrumento de consecução de uma dinâmica social e política que promova a dignidade humana.

Esses espantosos diagnósticos de desumanização da sociedade contemporânea precisam ser afrontados, com o propósito inadiável de nova configuração, em segurança pública, educação, trabalho, saúde, moradia, política menos partidarista e mais cidadã. Pela garantia de oportunidades para todos, por uma cultura que supere a exclusão social. Sendo assim, a reconquista da humanização que se anseia neste momento, com a reorganização das diversidades de todo tipo, autonomias e liberdades, demandas e prioridades, só será possível por meio de uma espiritualidade enraizada, fazendo de cada pessoa coração da paz.

A vivência da Semana Santa, a Semana Maior, fixando o olhar na revelação plena do amor de Deus, aproximando-nos da fonte inesgotável, é a grande oportunidade para se recuperar a espiritualidade tão necessária. A superficialidade de fazer da Semana Santa um feriadão pode ser um equívoco. O repouso justo, o silêncio fecundante, a oração alargadora do coração, as abstinências, a sensibilização pela escuta e a celebração do mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus são possibilidades fecundas para um novo tempo de vida pessoal e comunitária em busca do indispensável vigor espiritual.