Lições da Copa

Dom Genival Saraiva de França

Lições da Copa

Dom Genival Saraiva Bispo Emérito de Palmares (PE)

Envolvendo países de diversos Continentes, desde 1930, realiza-se a Copa do Mundo que sempre foi vista como um evento que promove o congraçamento entre as nações. Com efeito, ao longo dos tempos, o futebol vem se revelando como o “esporte das multidões”. De fato, entre essas multidões, há pessoas e grupos realmente que amam o seu clube e beijam a camisa de seu time, apaixonadamente. Hoje a crônica jornalística identifica, entre estes, muitos casos de paixão doentia, basta que se analise o quadro de violência, em muitos países e cidades, nos estádios e arredores, nas vias públicas e nos transportes coletivos. Trata-se de uma doença social, com registro de mortes, de sequelas físicas em pessoas e de prejuízos públicos.

Sediar a Copa do Mundo é uma aspiração de muitos países, em razão dos dividendos de natureza política, turística e financeira que são colhidos por seus patrocinadores; nessa direção, de conformidade com o calendário da Fifa, evidenciam-se a disputa para sediar a Copa, visível na mídia, e os interesses de um variado lobby que, por natureza, sempre é obscuro. De regra, no momento dessa definição, a população vê com “bons olhos”, com euforia, a realização da Copa em seu país. Por ter feito as démarches requeridas pela Fifa, o Brasil viu coroado de êxito o seu empenho, ao ser escolhido, em 2007, como país-sede da Copa de 2014, fato que trouxe alegria à população. Todavia, com o “andar da carruagem”, segmentos da população foram fazendo sua leitura a respeito do evento, diante das suas muitas implicações, e começaram a se posicionar, de forma mais crítica. Assim, no contexto da abertura da Copa, conforme Pesquisa do Ibope, “Metade da população brasileira é a favor da realização da maior competição do futebol mundial no Brasil: 51% versus 42% que são contra”. Nessa leitura criteriosa, o ítem “custos financeiros” pesou muito, diante de muitas necessidades da população que deveriam ter prioridade, ao serem formuladas as políticas públicas, no âmbito municipal, estadual e federal.

A CNBB, entre muitas instituições da sociedade, se pronunciou a esse respeito: “Não é possível aceitar que, por causa da Copa, famílias e comunidades inteiras tenham sido removidas para a construção de estádios e de outras obras estruturantes, numa clara violação do direito à moradia. Tampouco se pode admitir que a Copa aprofunde as desigualdades urbanas e a degradação ambiental e justifique a instauração progressiva de uma institucionalidade de exceção, mediante decretos, medidas provisórias, portarias e resoluções. O sucesso da Copa do Mundo não se medirá pelos valores que injetará na economia local ou pelos lucros que proporcionará aos seus patrocinadores. Seu êxito estará na garantia de segurança para todos sem o uso da violência, no respeito ao direito às pacíficas manifestações de rua, na criação de mecanismos que impeçam o trabalho escravo, o tráfico humano e a exploração sexual, sobretudo, de pessoas vulneráveis e combatam eficazmente o racismo e a violência.”

A Copa do Mundo deixa lições que devem ser examinadas, responsavelmente, por quem a promoveu, pelos países que dela participaram e, de maneira especial, pelo governo e pela sociedade brasileira.

Os desafios da 52ª Assembléia Geral da CNBB

Dom Roberto Francisco Ferrería Paz

Os desafios da 52ª Assembléia Geral da CNBB

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz Bispo de Campos (RJ)

Iniciou no dia 30 de abril de 2014, e se encerrará no dia 09 de maio, ao meio dia, a 52ª Assembléia Geral da CNBB. Tratou como assuntos principais a renovação das paróquias em ordem a torná-la comunidade de comunidades e voltada para a irradiação missionária, atingindo o que se chama a "conversão pastoral" das estruturas, procedimentos e agentes.

Foi aprovado o documento que se posiciona sobre a questão agrária, buscando não só agilizar como queria São João Paulo II uma autêntica reforma agrária, mas promover um novo paradigma civilizatório com respeito a integridade do planeta e a defesa dos bens comuns e públicos das águas e das florestas. Um terceiro texto destinado a provocar uma reflexão e um debate mais aprofundado foi o dos Cristão leigos e leigas, luz do mundo e sal da terra.

Quer se assumir o legado do Concilio Vaticano II, empoderando os leigos, para resgatar a sua identidade batismal e missionária, fazendo-os protagonistas da Nova Evangelização, redefinindo espaços de comunhão e participação, consolidando na sinodalidade os CDLs ( Conselhos Diocesanos de Leigos ). Ainda foram feitas duas declarações: uma dirigida aos trabalhadores e trabalhadoras, combatendo a precariedade e penosidade do trabalho, bem como o trabalho escravo e forçado, conseqüência da globalização do capital especulativo e predatório, que afastam e violentam o verdadeiro sentido do trabalho na ótica da criação e do desígnio divino.

A segunda manifestação ocupou-se das eleições 2014, oferecendo uma analise de conjuntura e critérios para emitir um voto consciente e responsável, não focalizando em primeiro lugar candidatos, mas um projeto de Nação alicerçado num desenvolvimento integral, solidário e sustentável, que supere a ciranda financeira e lucro especulativo do grande capital, para criar trabalho decente, escola de qualidade, e saúde para todos, com segurança coletiva centrada nos direitos humanos e na justiça social.

Sentimos que a Igreja está vivendo um forte momento de Kairós, respondendo as iniciativas ungidas e proféticas do Papa Francisco. Estes desafios nos lançam certamente a construção e comprometimento com uma Igreja em saída, primeirando como diz o Papa no amor e na fraternidade solidária, servidora de todos /as. Deus seja louvado!

A Caridade nos ensinamentos de um Padre da Igreja

A Caridade nos ensinamentos de um Padre da Igreja

Cardeal Orani João Tempesta Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Neste Ano da Caridade que estamos vivendo em nossa Arquidiocese, não podemos deixar de refletir sobre o amor desinteressado ao próximo, o ágape, à luz dos ensinamentos de alguns Padres da Igreja.

Também vivemos o Domingo de Ramos e da Paixão, quando, em nosso país, temos a Coleta da Solidariedade. A Igreja que partilha os frutos da penitência quaresmal como ato concreto para os irmãos e irmãs necessitados.

Os Padres da Igreja são muito duros em falar sobre a questão da riqueza e a importância da partilha. São textos antigos atualíssimos.

Como o próprio nome diz, Padres (=Pais) da Igreja são os grandes mestres (bispos, sacerdotes, religiosos ou leigos) que, nos primeiros séculos da história do Cristianismo, muito contribuíram, por meio de seus estudos, para a melhor formulação e explicitação das verdades centrais da nossa fé.

Classicamente, se entende que o último Padre da Igreja latina foi São Gregório Magno (†604) e da Igreja oriental São João Damasceno (†749), embora, de modo mais amplo, sejam inseridos entre eles nomes posteriores, que também atuaram em momentos decisivos, como por exemplo, São Cirilo e São Metódio, Santo Odon de Cluny, Santo Anselmo de Aosta, São Bernardo de Claraval etc. (cf. Bento XVI. Os Padres da Igreja II. Campinas: Ecclesiae, 2013).

Pois bem, dentre esses Padres está São Cipriano de Cartago (cerca de 210-258). Ele nos deixou, em meio aos seus escritos, o importante tratado Sobre as boas obras e a esmola, publicado em 252, portanto escrito há 1.762 anos, e que se mantém plenamente atual como se tivesse sido redigido ontem à tarde para nós, cristãos do século XXI.

Ao falarmos de misericórdia ou do compadecer-se ante a miséria alheia, seja ela material ou espiritual, devemos nos lembrar de que Deus é o grande misericordioso. Mais: Ele é a misericórdia por excelência, pois, para nos salvar e nos dar a verdadeira vida, enviou o seu próprio Filho, Jesus Cristo, para morrer por nós e, assim, nos redimir fazendo-nos também filhos de Deus (cf. Gl 4,7). Sim, Cristo Jesus “abaixou-se para erguer o povo que antes jazia na terra, deixou-se ferir para curar as nossas feridas, fez-se escravo para trazer os escravos à liberdade, e suportou a morte para elevar os mortais à imortalidade”. São, portanto, muitas e grandiosas as dádivas da Divina Misericórdia para conosco, peregrinos nesta terra em demanda da Jerusalém celeste (cf. n. 1).

Contudo, São Cipriano continua dizendo que não bastava ao Senhor Jesus vir curar-nos das feridas de Adão e extrair de nós o veneno da antiga serpente (cf. Gn 3). Era preciso deixar-nos uma Lei que nos ajudasse a permanecer sãos ou curados, por isso compeliu-nos a evitar o pecado e, consequentemente, guardar a inocência. Sabendo, no entanto, que, em nossa fragilidade e covardia, seríamos incapazes de cumprir à risca tão grande ensinamento, Deus nos deu as obras de justiça e de misericórdia a fim de que pudéssemos consolidar a nossa conversão e fortalecer nossa vida mediante a esmola – entenda-se, em sentido amplo, a caridade em geral.

Muito didático, Cipriano, que falou do amor do Pai ao enviar-nos seu Filho, lembra, agora, a missão especial do Divino Espírito Santo ao nos falar, por meio da Escritura, que pela esmola e pela fé apagam-se os pecados (cf. Prov. 16,6; 15,27), pois “tal como a água apaga o fogo, assim a esmola extingue o pecado” (Ecl 3,33), ou seja, assim como a água da salvação – derramada sobre nós no Batismo – apaga o fogo do inferno, as esmolas e boas obras apagam as chamas causadas pelos nossos delitos. Daí, uma vez mais, a sábia conclusão do santo cartaginês: “Se no Batismo somente se perdoam uma única vez os pecados, a prática assídua e incessante das esmolas torna a reconciliar-nos com Deus à imitação do que acontece no Batismo” (n. 2).

Sabemos que a celebração penitencial ou confissão é que perdoa os nossos pecados, mas a penitência e arrependimento nos fazem partilhar com os outros os bens deste mundo.

Afinal, no Evangelho, quando os discípulos do Senhor foram censurados por comerem sem ter lavado as mãos, Ele respondeu: “Insensatos! Quem fez o exterior, não fez também o interior? Antes, dai o que tendes em esmola e tudo ficará puro para vós” (Lc 11,40-41). Aqui, Jesus mostra, a princípio, que muito maior do que a limpeza exterior é a pureza interior, e para consegui-la, depois do Batismo, um dos grandes meios é dar esmolas ou praticar a misericórdia para com o próximo mais necessitado.

Eis um grande ensinamento que se põe a cada um de nós: se o exercício da caridade misericordiosa ajuda a apagar nossos pecados, e todos nós somos pecadores (cf. Prov 20,9; 1Jo 1,8), a consequência é óbvia: todos precisamos, se desejarmos, após a morte, a vida eterna – realidade refletida, muito especialmente durante o Tríduo Pascal – praticar, sem cessar, atos misericordiosos. A partir daqui, ensina São Cipriano: “Portanto, queridíssimos irmãos, a Palavra divina nunca se calou nas Sagradas Escrituras, quer no Antigo quer no Novo Testamento, nem deixou de impelir e animar o povo a realizar sempre e em toda parte as obras de Deus, e urge-o pela voz e pelas exortações do Espírito Santo a praticar a esmola, a fim de que adquirisse a firme esperança de chegar ao reino celestial” (n. 4).

Isso é tão real que, depois de ordenar ao profeta Isaías a censura à casa de Jacó por seus pecados e a repreensão a ela de modo impetuoso, o Senhor deixa claro uma verdade: só pelas boas obras poderiam os israelitas aplacar a ira divina desencadeada por seus atos maus e, por conseguinte, readquirir sobre eles a misericórdia divina. Eis textualmente a Palavra de Iahweh: “Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aqueles que vês nus e em não te esconderes daquele que é tua carne? Se fizeres isso, a tua luz romperá como a aurora, a cura das tuas feridas se operará rapidamente, a tua justiça irá à tua frente, e a glória de Iahweh irá à tua retaguarda. Então clamarás e Iahweh responderá, clamarás por socorro e ele dirá: ‘Eis-me aqui! ’” (58,6-9).

Daí o comentário de São Cipriano: “Os meios de que dispomos para aplacar a Deus foram-nos dados, portanto, pela própria Palavra de Deus, pois os ensinamentos divinos mostraram o que devem fazer os pecadores, isto é, oferecer-lhe satisfação mediante as boas obras e purificar-se dos seus pecados com atos meritórios de misericórdia” (n. 5). Isso o testemunha fartamente a Escritura: quem é caridoso para com o pobre recebe dele as orações (cf. Ecl 29,12), enquanto quem não ouve a súplica do necessitado também não é ouvido por Deus (cf. Prov 21,13), pois só é boa a oração que vem acompanhada do jejum e da esmola (cf. Tb 12,8).

Aprendemos, assim, “que as nossas orações e o nosso jejum perdem a força se não estiverem unidos às esmolas, e que as súplicas isoladas de pouco valem, quando se trata de impetrar o favor de Deus, se não estão saturadas de atos e de obras” (n. 5). Por essa razão, o tempo quaresmal nos exorta ao importante tripé composto pelo jejum, a esmola (caridade) e a oração.

Queiramos, pois, ler e reler com grande atenção os ensinamentos bíblicos comentados por São Cipriano de Cartago, grande Padre e Doutor da Igreja, a respeito das boas obras de caridade, tão importantes para nós e para nossos irmãos e irmãs mais necessitados que temos a oportunidade de encontrar no nosso dia a dia. Eles são (ou deveriam ser) a imagem do Cristo zombado, ferido, chagado a precisar do nosso auxílio, seja pessoalmente, ou pelo encaminhamento a quem possa mais diretamente ajudá-los na amenização ou mesmo na extinção de seus indizíveis sofrimentos.

É para essa abertura ao outro que a Igreja nos convoca, e o Ano da Caridade de nossa Arquidiocese nos estimula. Deus espera, na pessoa do(a) sofredor(a), o nosso sim generoso e transformador. Assim seja!

Buscar vigor espiritual

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Buscar vigor espiritual

Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte

Os diagnósticos da crise contemporânea apontam processos corrosivos de desumanização, pesando existencialmente sobre os ombros de todos. É incontestável a perda do sentido da própria vida, com consequentes atentados contra a dignidade do outro. Violências de todo tipo permeiam as relações sociais e humanas como o tráfico de pessoas - tema da Campanha da Fraternidade (CF-2014) - a banalização da vida e a perda da noção de moralidade, que resultam no desrespeito aos valores essenciais do ser humano.

Essa desumanização que alimenta dia a dia o aumento da violência e intensifica a inércia de ações governamentais e cidadãs, exige reação urgente e massiva na reconfiguração dos cenários socioculturais e políticos.

Tem-se a impressão de que a sociedade contemporânea é um caminhão desgovernado ladeira a baixo, sem freios. De tudo acontece. Tudo parece possível quando deixa de existir clareza sobre os valores do bem e do mal na vida social e familiar. Diante desta realidade, é compromisso inegociável do cristão o combate diuturno para fazer triunfar o bem e a justiça.

Ardiloso, o mal não se dobra facilmente a qualquer ameaça. Vencê-lo requer estratégias inteligentes, de racionalidade e de vontade política próprias de quem tem estatura cidadã. Mas só a espiritualidade é capaz de sustentar a competência daquele que assume esta luta. Só ela tem poderes para alargar os corações e capacitar as pessoas para uma compreensão que ultrapassa a simples lógica das relações formais e conduzir à construção de uma sociedade justa e solidária, por meio do aprendizado do amor a partir de sua gênese: a fonte inesgotável, o amor, Deus revelado de maneira plena na pessoa de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador e Redentor. Significativo é ter presente o ápice do diálogo de Jesus com Nicodemos, narrado pelo evangelista João, quando o Mestre diz: ‘Deus amou tanto o mundo, que deu o seu filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna’.

Não se pode ser coração da paz e, assim, vencer o mal, sem beber da fonte do amor, que o limite humano não garante, em si. E este amor de Deus, na história da humanidade, se personifica em Jesus Cristo. Se há essa compreensão, permanece cotidianamente o desafio de aproximação dessa fonte e o usufruto da oferta dadivosa que ele faz de si, com ensinamentos e gestos que, imitados e testemunhados, podem fazer de cada coração da paz instrumento de consecução de uma dinâmica social e política que promova a dignidade humana.

Esses espantosos diagnósticos de desumanização da sociedade contemporânea precisam ser afrontados, com o propósito inadiável de nova configuração, em segurança pública, educação, trabalho, saúde, moradia, política menos partidarista e mais cidadã. Pela garantia de oportunidades para todos, por uma cultura que supere a exclusão social. Sendo assim, a reconquista da humanização que se anseia neste momento, com a reorganização das diversidades de todo tipo, autonomias e liberdades, demandas e prioridades, só será possível por meio de uma espiritualidade enraizada, fazendo de cada pessoa coração da paz.

A vivência da Semana Santa, a Semana Maior, fixando o olhar na revelação plena do amor de Deus, aproximando-nos da fonte inesgotável, é a grande oportunidade para se recuperar a espiritualidade tão necessária. A superficialidade de fazer da Semana Santa um feriadão pode ser um equívoco. O repouso justo, o silêncio fecundante, a oração alargadora do coração, as abstinências, a sensibilização pela escuta e a celebração do mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus são possibilidades fecundas para um novo tempo de vida pessoal e comunitária em busca do indispensável vigor espiritual.

Lugares santos”

Dom Alberto Taveira Corrêa

“Lugares santos”

Dom Alberto Taveira Corrêa Arcebispo de Belém do Pará

"Jesus Cristo morreu, Jesus Cristo ressuscitou, Jesus Cristo é o Senhor, Jesus Cristo há de voltar!" Poucas palavras, com as quais se resume o essencial da fé cristã. Impressiona o fato de que os seguidores de Jesus, nos Atos dos Apóstolos, tenham tido tamanha força transformadora, capaz de compungir os corações mais endurecidos. De lá para cá, é a mesma verdade, a certeza que decide a vida das pessoas, anunciada em todos os recantos da terra, até alcançar os confins do mundo que o Senhor nos deu. É que os pregadores do Evangelho não falam sozinhos e nem são portadores de mensagens próprias. Apenas se colocam à disposição de Deus, que envia a força do Espírito Santo, dando-lhes palavras adequadas e a força para o testemunho corajoso de Jesus Cristo.

Como somos humanos e vivemos a fé no correr do tempo a pedagogia da Igreja nos faz percorrer, num aprofundamento contínuo do mistério cristão, as diversas etapas da história da salvação. Com a Semana Santa, que está para começar, Jesus Cristo, o único Salvador e Senhor, não percorre de novo os passos da Via Dolorosa, ou vem a morrer de novo na Cruz, para depois ressuscitar. Agora é a nossa vez! E começa a Semana Santa com o convite a visitarmos os lugares santos, para recolher os ensinamentos deixados e, mais do que tudo, recebermos a graça de Deus que nos é dada em tempo oportuno.

Pelas ruas começa nosso giro pelos lugares da fé na manhã do Domingo de Ramos. Começando pelas crianças até chegar aos mais velhos, as ruas da Jerusalém de ontem e de hoje devem ficar fervilhando de gente, aclamações e orações, com os ramos da fé erguidos em louvor ao Senhor. Peço que a juventude nos tome pelas mãos, na Jornada Mundial, desta feita celebrada em cada Igreja Local, no mundo inteiro. O Papa Francisco escolheu como tema da Jornada uma bem-aventurança: "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu” (Mt 5, 3). Nesta estação do Domingo de Ramos, três lições: ser livres em relação às coisas, despojando-nos do que é supérfluo, pondo Jesus em primeiro lugar em nossas escolhas, com a coragem para viver a sobriedade; depois, cuidar dos mais pobres e sofredores. Diante das mais variadas formas de pobreza, o desemprego, a emigração, dependências dos mais variados tipos, permanecer vigilantes e conscientes, vencendo a tentação da indiferença. Ainda uma lição: os mais pobres são mestres para nós. Ensinam-nos que uma pessoa não vale por aquilo que possui. Mesmo sem bens materiais, conserva sempre a sua dignidade.

Entremos numa casa! Com nossas boas vindas a este novo "turismo religioso", peço a alguns amigos de Jesus, Marta, Maria e Lázaro, assim como os apóstolos do Senhor, que nos acompanhem de segunda até quarta-feira. São dias de mais oração e intimidade com Jesus. Sugerimos um tempo de silêncio e adoração, diante de Jesus Eucaristia, aquele que gostava de ir à casa de Betânia. O lugar santo para esta etapa da peregrinação da Semana Santa pode ser a sua própria casa, ou quem sabe, um pouco mais de silêncio e revisão de vida.

Visitar a Igreja! Na quinta-feira pela manhã, a Igreja quer conduzir-nos ao coração de seu mistério de unidade. Visite, se possível, a Catedral de sua Diocese, para participar da Missa da Unidade. Lá você acompanhará a Bênção dos Óleos dos Catecúmenos e dos Enfermos e a Consagração do Óleo do Crisma. Os padres renovarão, diante de você e de todo o povo, como testemunhas qualificadas, seus compromissos de serviço. O lugar Santo é a Igreja que se realiza em torno do Bispo, unida ao mundo inteiro! É bom sentir que somos Igreja viva, povo sacerdotal, que bendiz ao seu Senhor.

Bem vindo ao Cenáculo! Desde o início da Quaresma, vivemos para acompanhar Jesus e com ele vivermos a sua Páscoa. Quinta-feira à noite começa a Páscoa. O primeiro lugar a ser visitado tem o nome de Cenáculo, sim, lugar da ceia! Ali, quando chega a "hora" de Jesus, ele se despoja de suas vestes, lava os pés dos discípulos, gesto inusitado e ao mesmo tempo coerente com tudo o que tinha vivido junto deles. Dá de presente o seu mandamento, "amai-vos uns aos outros como eu vos amei" e, para a grata surpresa de todos, institui a Eucaristia, memorial permanente de seu eterno amor. Corpo, Sangue, Alma e Divindade estão verdadeiramente presentes! Todas as vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Vinho, anunciamos a Morte do Senhor e anunciamos a sua Ressurreição, até que ele venha! Sejam bem vindos os irmãos e irmãs que ultrapassam os umbrais do Cenáculo, para participar da Mesa do Senhor e aprender as lições do altar! Depois da Missa da Ceia do Senhor, os peregrinos da Semana Santa são convidados a adorarem em silêncio o grande Mistério!

Agora, a subida do Calvário. Daqui para frente, despedida, dor, apreensão, correria, crise. São os discípulos de Jesus que se dispersam por não conseguirem acompanhar seu intrépido Senhor. E nós vamos juntos, pois suas dificuldades retratam o que nós mesmos somos e vivemos. Saia de sua casa, irmão ou irmã, vá pelas ruas, recolha as dores e os pecados próprios ou dos outros, siga o Senhor dos Passos ou a Virgem Dolorosa, representados pelas suas imagens. Abra os ouvidos do coração, pois o esperam três horas de sabedoria pura, destilada da Escritura, no Sermão das Sete Palavras. Em Belém, é a centésima trigésima quinta vez que a cidade interrompe tudo o que faz para apenas ouvir a pregação da Palavra de Deus. Depois, é hora da Igreja, para repousar à sombra dos braços do Servo Sofredor de Javé, ouvir com piedade a narrativa da Paixão, beijar a Cruz e comungar. É a Páscoa da Cruz!

A casa do silêncio! De repente, tudo se faz silêncio. É Sábado Santo! Percorra com os passos do coração o Jardim de José de Arimateia. Aproveite para recordar outros jardins, o da criação, o do Horto das Oliveiras, o do Calvário. Procure a sepultura do Senhor e não desperdice qualquer detalhe. Guarde bem as imagens, registre o som do silêncio.

Da Cruz ao Sepulcro e à Galileia! Estamos preparados para o ato final, derradeira etapa de nossa visita aos lugares santos da Semana Santa. Ninguém fique em casa! Noite de sábado, roupas festivas, velas nas mãos, uma fogueira nos atrai. É fogo novo, sinal de um acontecimento que mudou o mundo. A Igreja acende no único Círio Pascal, as velas de todos os fiéis. A luz do Lume aceso nas noites do mundo, a Igreja nos faz contemplar a história da Salvação, Criação, Alianças, Êxodo, Profetas, Esperanças!

Nenhum roteiro de viagens pode conduzir-nos a tal experiência. É necessário ser peregrinos da fé, desejosos de ver Deus e a sua vitória. Para nossa renovada surpresa, ressoa de novo o Aleluia! O Evangelho, perene Boa Nova, anuncia que Jesus Cristo ressuscitou. Ele está vivo no meio de nós. É o Senhor e portador da Paz. É hora de acompanhar os que são recebidos na Igreja na noite santa e renovar os compromissos batismais. Somos filhos da Igreja, somos irmãos, somos um povo de fé! E o Domingo, que veio a se tornar a Páscoa Semanal dos cristãos, celebrado com alegria e devoção, abrirá a peregrinação cotidiana dos homens e mulheres que, voltando às suas casas, tornar-se-ão anunciadores do mesmo mistério.